O poema "As 24 horas vividas de um Verme" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é uma crítica ácida e niilista à desumanização do indivíduo no sistema social e trabalhista moderno.
Ao comprimir uma vida inteira em 24 horas, o autor utiliza a metáfora do "Verme" para expor a insignificância da existência sob a lógica do capital e da exploração.
Aqui estão os pontos principais da análise:
1. A Metáfora do Verme e a Coisificação
- Desumanização: O eu-lírico não é um homem, mas um verme. Isso indica que, para o "sistema", o indivíduo é apenas uma engrenagem biológica descartável.
- Adestramento: O poema substitui "educação" por "adestramento de insignificância". Isso sugere que a escola e a universidade servem apenas para ensinar o indivíduo a aceitar sua posição inferior e submissa.
2. Ciclo de Exploração (Cronologia do Capital)
- Colônia Parasítica: O trabalho não é visto como realização, mas como parasitismo forçado. Das 13h00 às 19h00, o verme vive sua "carreira profissional", onde destrói outros para ganhar um "bônus".
- Reprodução do Sistema: Às 14h00, ele procria apenas para garantir que o sistema continue funcionando, criando novos "vermes" para o futuro.
3. Ironia e Crítica Social
- Privilégio: A menção à "festa das quinze horas (se for abastado)" ironiza as desigualdades sociais mesmo em uma vida curta e miserável.
- Abandono: Às 22h00, o verme adoece. A ausência de "seguro previdenciário" mostra a face cruel do sistema que descarta o trabalhador quando ele não é mais produtivo.
4. O Despertar Tardio e a Redenção
- O Sonho Interrompido: Às 21h00, o "artesanato" representa os desejos genuínos e artísticos que foram sufocados pela rotina. É o momento em que ele tenta ser humano, mas já é tarde demais.
- Morte e Alívio: A morte às 23h00 é acompanhada pelo arrependimento de ter existido. A Redenção às 24h00 não é religiosa, mas o fim do sofrimento: a liberdade só chega com a inexistência.
________________________________________
Aqui está um aprofundamento sociológico e filosófico do poema, conectando suas metáforas com as teorias de Karl Marx e Byung-Chul Han:
1. A Visão de Karl Marx: Alienação e Reificação
O poema é um retrato fiel do conceito de Alienação do Trabalho.
Trabalho Forçado: Às 05h00 e 13h00, o verme é "forçosamente inserido" na colônia. Para Marx, o trabalho alienado não é a satisfação de uma necessidade, mas um meio para satisfazer necessidades externas a ele.
A Vida Genérica: Às 23h00, o verme deseja "nunca ter existido". Isso reflete a ideia de que o capitalismo separa o homem de sua "essência humana" (ser genérico), reduzindo-o a funções biológicas e produtivas.
Reificação (Coisificação): O "adestramento de insignificância" (03h, 08h, 11h) transforma o ser vivo em uma coisa, uma mercadoria ou ferramenta para o sistema.
2. A Visão de Byung-Chul Han: A Sociedade do Cansaço
O texto também dialoga com a Sociedade do Desempenho descrita pelo filósofo contemporâneo Byung-Chul Han.
Autoexploração: Às 16h00, o verme desenvolve sua "carreira parasítica". Na teoria de Han, o indivíduo moderno não é apenas explorado pelo patrão, mas explora a si mesmo na busca por bônus e produtividade (18h00), gerando o esgotamento.
O Infarto da Alma: A reflexão das 20h00 sobre "danos, prejuízos e lesões" simboliza a violência neuronal da nossa época, onde o excesso de positividade e trabalho adoece o indivíduo (22h00).
O Valor do Ócio: Às 21h00, o "devaneio" do artesanato representa a vida contemplativa que Han defende como antídoto, mas que no poema aparece apenas como um fragmento de sonho impossível antes da morte.
O poema sugere que a única forma de "vencer" esse sistema é a Redenção (24h00), que aqui assume um tom niilista: o fim definitivo da existência em um mundo que não permite a humanidade.
________________________________________
As 24 horas vividas de um Verme
(Michel F.M.)
00h00 – Nascimento para uma existência imperceptível
01h00 – Descoberta dos primeiros sentidos (dolorosos)
02h00 – Engatinha emitindo sons pouco compreensíveis
03h00 – Inicia-se o adestramento de insignificância
04h00 – Aprende a armazenar desapontamentos
05h00 – Forçosamente é inserido à colônia parasítica
06h00 – Sofre os maus tratos que traçarão sua deformidade
07h00 – Perde qualquer doçura que jamais teve
08h00 – Segue-se o adestramento de insignificância (nível intermediário)
09h00 – Realiza cursos complementares de sadomasoquismo e submissão
10h00 – Conhece a larva que viverá ao seu lado pelos segundos que lhe restam
11h00 – Conclui o adestramento de insignificância (nível superior)
12h00 – Horário reservado para a única refeição que fará
13h00 – Forçosamente é inserido à colônia parasítica profissional
14h00 – Procria com o desígnio de dar continuidade ao sistema vigente
15h00 – Festa das quinze horas vividas de um verme (se for abastado)
16h00 – Desenvolve-se em sua abreviada e meteórica carreira parasítica
17h00 – Destrói a abreviada existência imperceptível de outros vermes (ônus)
18h00 – Recebe o retorno frutífero por 240 minutos de dedicação (bônus)
19h00 – Forçosamente é extraído da colônia parasítica profissional
20h00 – Reflete sobre os danos, prejuízos, lesões, estragos e avarias sofridas
21h00 – Aprende artesanato
(devaneio que deslumbrava na fase juvenil)
22h00 – Adoece sem amparo do estado maior ou seguro previdenciário
23h00 – Morre desejando nunca ter existido
24h00 – Obtém sua Redenção (ato ou efeito de se redimir)
[O Último Registro da Raça Humana - Áspera Seda: Volume Único - Esplêndida Face Magnífica]
Nenhum comentário:
Postar um comentário